O Braga não merece que se inicie esta história pelo derrotado, mas a exibição do FC Porto exige que se comece com uma simples questão: o que é que o plantel do tetracampeão não tem que obrigue um defesa-central a jogar a ponta-de-lança no último quarto de hora? Enquanto não há resposta, alinhe-se uma apreciável quantidade de elogios a um Braga que foi sempre superior ao tetracampeão em todos os aspectos que vêm no cardápio de uma equipa que não se fica pelas vitórias mais ou menos morais. Domingos Paciência considerou antes do jogo que os recordes são para valorizar e ontem ordenou que a sequência de quatro vitórias do Braga fosse suplantada por uma mão-cheia de triunfos, coisa nunca vista na história do clube. As palavras não bastam, e foram elas que ontem separaram Braga e FC Porto. Domingos não abdicou dos princípios e, enquanto não chegou ao golo, jogou sempre com quatro avançados, tantas eram as vezes que Mossoró, jogando atrás de Meyong, surgia numa das alas, obrigando Paulo César a juntar-se ao camaronês. Já Jesualdo, que tão bem explicara anteontem a utilização de Guarín no jogo de Londres - "... podemos chegar a um determinado jogo e escolher os jogadores que melhor se enquadram naquela partida" -, terá agora uma óbvia dificuldade em explicar a manutenção do médio colombiano no onze e a permanência de Belluschi no banco de suplentes durante todo o jogo. Recordando a presença de Essien, Lampard, Ballack e Malouda no onze do Chelsea na terça-feira, conclui-se que não havia semelhança possível com Vandinho, Hugo Viana e Mossoró na noite de ontem no Estádio AXA.
De volta ao jogo: numerosos na hora de atacar, os bracarenses eram também ferozes a defender, pressionando logo à saída de área de Helton e reduzindo o risco de a equipa partir pelo que parecia ser o seu elo mais fraco, Hugo Viana, manifestamente um óptimo jogador, mas reconhecidamente melhor a atacar do que a defender. Na prática, Vandinho acabou por chegar para todas as encomendas, tendo até espaço e tempo para assinar, com o pé direito, o lance mais perigoso da primeira parte. Este pontapé do médio brasileiro, aos 30', haveria de ser, ainda assim, o único remate da primeira parte com direito a essa definição. A relativa boa vida de Vandinho encontra mérito no rendimento do Braga, mas também faz eco no desempenho do meio-campo portista, onde Raul Meireles passou despercebido - mesmo quando transitou da direita para a esquerda do triângulo invertido, ainda na primeira parte - e Guarín, para azar do FC Porto, esteve sempre em destaque. Um olhar mais atento ao que fez o médio sul-americano permite ainda definir toda a equipa portista. Causa ou consequência, a verdade é que, enquanto Hugo Viana e Mossoró definiam as linhas e a velocidade dos ataques, Guarín foi sempre mais problema do que solução, perdendo na luta individual, errando passes e acumulando faltas. Depois da excelente exibição em Stamford Bridge, não merecia durante os próximos dias ver a razão da derrota de ontem personificada no seu nome. E derrota é algo que o FC Porto não conhecia no campeonato desde o 1-0 na Figueira da Foz, diante da Naval, a 1 de Novembro de 2008.
O jogo foi bem disputado, sempre com a tensão a pairar, alimentada pela expectativa de um golo bracarense que desse justiça ao domínio, mas também pelo risco que o Braga corria de sofrer por não abdicar do ataque diante de um FC Porto com galões de tetracampeão. Mas a verdade é que nenhuma das equipas rematou muito: a única bola do Braga que foi na direcção da baliza - ainda que tudo indicasse que o objectivo de Alan fosse o cruzamento, algo confirmado pelo próprio - acabou em golo, e os dois únicos remates certeiros do FC Porto, ambos de Farías, um suplente utilizado, foram assinalados no bloco de apontamentos depois do 1-0 e já em período de descontos. Em ambos os casos, o aniversariante Eduardo respondeu com duas defesas - a primeira foi sensacional, a segunda plena de atenção. E foi preciso Farías para que o guarda-redes internacional de Portugal tivesse de se aplicar, visto que, até então, o ataque portista fora de uma completa nulidade. Falcao falhou redondamente o objectivo de marcar em cinco jornadas consecutivas - era esse o desafio que estava colocado no sítio oficial do jogador momentos antes do apito inicial -, e Hulk foi uma sombra de um herói. Pelo contrário, revelou-se individualista ao ponto de irritar os companheiros. Do outro lado, o Braga era equipa, o que se percebeu na festa que Vandinho fez ao ouvir o apito final.
Braga 1-0 FC Porto
Estádio AXA
relvado excelente
17 215 mil espectadores
Árbitro Pero proença (AF lisboa)
Assistentes Tiago trigo e ricardo santos
4º árbitro
Treinador Domingos Paciência
1 Eduardo GR 8
47 João Pereira LD 6
5 Moisés DC 7
4 André Leone DC 6
6 Evaldo LE 6
88 Vandinho MD 7
45 Hugo Viana MO 6
8 Mossoró MO a 83' 8
30 Alan AD 8
9 Paulo César AE a 80' 5
19 Meyong AV a 85' 5
-
31 Kieszek GR
27 Filipe Oliveira LD
68 Ney DC
23 Madrid MD d 83' 3
99 Matheus AE d 80' 4
11 Diogo Valente AE d 85' -
14 Yazalde AV
Golos
[1-0] 70' Alan
amarelos 36'João Pereira, 45' Mossoró
vermelhos Nada assinalar
Jesulado Ferreira Treinador
1 Helton GR 4
13 Fucile LD 4
14 Rolando DC 7
2 Bruno Alves DC 6
15 Álvaro Pereira LE 5
25 Fernando MD 6
6 Guarin MO 4
3 Raul Meireles MO a 63' 4
17 Varela AD 5
12 Hulk AE 4
9 Falcao AV a 63' 4
-
24 Beto GR
21 Sapunaru LD
16 Maicon DC
7 Belluschi MO
11 Mariano AD
10 Rodríguez AE d 63' 5
19 Farías AV d 63' 5
amarelos 26' Falcao, 27' Hulk
vermelhos Nada a assinalar
o jogo. pt